Viajo por diversas cidades e quase sempre a estadia é de poucos meses. Geralmente não dá para comprar um carro, o que despenderia tempo e certamente perda de dinheiro. O negócio é transporte público, quando de boa qualidade e agilidade, ou alugar um veículo. Quem já esteve na Califórnia, mas precisamente em Los Angeles, sabe que lá o transporte é adequado para acabar com os nervos até da pessoa mais tranquila do planeta. Considerando ainda que eu queria fazer minha Driver License, o ideal seria mesmo ter um carro.



Alugando um carro

Fiz uma busca na internet, focando em preço, já que aqui todos os carros são realmente bons, não teria problema com a qualidade. Encontrei uma agência perto de casa, em Beverly Hills (sim, morar perto de Beverly Hills é chiquérrimo mesmo), e fui lá buscar meu carro do tipo “pequeno e econômico”. O atendente, um latino muito gentil e simpático, me deu a chave explicando que era só ir ao estacionamento, acionar o alarme, e o carro que acendesse as lanternas seria o meu. Até então, eu nem tinha olhado para o documento de locação.

A surpresa

Cheguei no estacionamento, apertei o botão do alarme e “boooommm” lá estava um Mustang zerado piscando para mim! Fui chegando perto como quem vê um animal ferido e não sabe o que fazer. Imaginaram a cena? Olhei em volta e ninguém por perto. Abri a porta, entrei, e vi um painel cheio de botões, telas e muita coisa diferente do que eu estava acostumada no Brasil. Sentei no banco do motorista sentindo como se fosse pilotar um avião. Saí do carro achando que havia algum sério engano.

Voltei para a loja e o mesmo senhor já veio na minha direção e perguntou se havia algum problema – já começo a rir só em lembrar da cara dele – eu perguntei se não havia algum engano e se ele tinha certeza de que aquele era o meu carro. Ele riu! Sério, ele riu de mim. Mesmo de forma respeitosa, mas riu, dizendo que sim, aquele MUSTANG era da linha de carros pequenos e econômicos. Eu realmente não consigo pensar em algo assim no Brasil. Quem consegue?

Ligando o Mustang

Voltei para o carro já vislumbrando meus passeios de carrão por Los Angeles. Entrei de novo no meu super carro, olhando tudo em volta, tentando me familiarizar com toda a tecnologia do possante. Depois dos primeiros minutos de espanto, me dei conta que o carro não tinha chave. Claro que não, a modernidade está por toda parte, por que não estaria em um Mustang nos Estados Unidos?

Pressionei um botão escrito START e nada do carro ligar, com embreagem, engatado, desengatado, de todo jeito, e nada. Dentro do estacionamento o sinal da internet estava fraco, mas dava para procurar os famosos vídeos do Youtube “como ligar um Mustang” – e eles existem mesmo! E nos minutos seguintes tentei de tudo que eles ensinavam, e nada.



Pensei em algum amigo que pudesse me ajudar e então liguei para a Lia, uma brasileira que eu tinha conhecido há poucas semanas. Ela ria mais que eu, pensando no “poisézinho” dela que não dava trabalho nenhum. Perguntou ao irmão, mas ele também não sabia nada além do que eu já sabia. Desliguei já visualizando a situação: eu empurrando um Mustang ladeira abaixo para pegar no tranco. Afff… viajei! Então voltei para a loja.

Dá para imaginar a cara daquele senhor? Pois é… já rindo! Também ri e já pedindo desculpas, e cheia de vergonha, disse que não sabia como ligar o carro. Ele foi tão gentil engolindo o riso que até me comovi. Explicou, com seu inglês cheio de sotaque, gesticulando, que eu deveria pisar na embreagem e apertar o botão Start ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo! Saí suando de vergonha e nervoso.

Fui eu tentar ligar o possante e… Ligou! Claro, um pouco de experiência (e eu já tinha muitos minutos de experiência nisso) ajuda muito.

Hora de sair

Tudo resolvido, agora só faltava sair do estacionamento e correr para o abraço. Mas como sair sem o ticket? Vai e volta, sai do carro, pensa em voltar lá para perguntar ao simpático risonho, mas de novo? E a vergonha? Fui até o bloqueio e apertei o botão Help para explicar a situação. Uma mulher atendeu e tentei explicar a situação, com meu maravilhoso inglês de iniciante. Não me perguntem o que ela disse, mas eu expliquei tudo de novo e sei lá o motivo, mas ela abriu a chancela para mim.

Saí quase como se estivesse  em um Grand Prix de fórmula 1, tomando a rua rumo ao sonho de dirigir um Mustang nas ruas de Beverly Hills, depois em Hollywood. Sim, eu morava em Hollywood – tão chique quanto Beverly Hills!

Ostentando com um Mustang

Enviei fotos para minhas amigas, minhas irmãs, e minha mãe, que respondeu: “Filha, não sei como é aí, mas aqui no Brasil, Mustang é coisa velha, carro feio.” Ah, mãe, a senhora não imagina as diferenças que temos no chamado “primeiro mundo”.

Quando encontrei minha amiga Carol e sua filha Emily para jantarmos, elas ficaram chocadas. Olhavam para tudo como se vissem um carro do futuro. Durante o trajeto algo estranho estava acontecendo no meu assento. Eu tinha consciência que não precisava ir ao banheiro, mas sentia um calor fora do normal na região glútea. Motivo de risos eternos. Sem saber, liguei o aquecimento do meu assento. Tudo resolvido, mas é bom saber que tenho isso à disposição.

Fomos encontrar outra amiga e já havia anoitecido, quando abrimos a porta reparamos que ela tem luz para que você veja onde está pisando quando sair do carro. Mais risos. Quando a Louise chegou, não se aguentava, olhando para cada centímetro do carro, chocada. E foram delas as palavras que marcaram este momento: “Parece uma nave espacial!”.

Espanto masculino

Já que só falei sobre amigas, e geralmente mulher não entende muito mesmo de carro – é que isso não é realmente tão importante para nós – e não liga para marca, modelo, acessórios, e tudo aquilo que faz os homens despenderem tempo, energia e – muito – dinheiro, então fui mostrar meu carro para meus colegas, também brasileiros, o Luiz e o Danilo. Pasmem, mas eles reagiram com mais espanto, alegria e encantamento que as mulheres, mesmo já tendo experiência como manobristas na Flórida. O Danilo ficou vidrado, parecendo criança quando ganha um brinquedo novo; mexeu em tudo e cada nova descoberta, um sorriso incrédulo.

Sim, o carro era realmente fantástico. Isso me lembra de entrar no site da agência para saber se ele já está á venda. Vai que… eu posso!

A realização de um sonho

Enquanto eu dirigia minha nave espacial pelas ruas de Beverly Hills e Hollywood, enquanto eu pilotava meu possante pelas highways de Los Angeles, enquanto eu guiava minha super máquina pela Califórnia… pensava que estava realizando um sonho; Um sonho que eu sequer tinha sonhado, pelo menos não com esses detalhes. E pensei em como a vida responde aos nossos esforços.

Essa é mais uma prova de que os sonhos valem cada sacrifício, que o resultado do esforço vale cada lágrima, que o pensamento atrai, e que querer é poder, sim.

 

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