Minha saída do Brasil foi desejada e planejada por mais de 20 anos. É sério!



Na minha infância eu assistia aos telejornais, lia os jornais nas bancas, ouvia as pessoas falando, recebia orientações de cuidado dos meus pais, e achava que toda aquela violência era inadmissível. Como as pessoas podiam sair às ruas com medo que outras pessoas pegassem seus pertences? Ou com medo de nem voltar para casa? Também falavam que os políticos, essas pessoas que estavam trabalhando para cuidar de nós, roubavam nosso dinheiro e nos deixava em dificuldades. Eu não conseguia entender porquê faziam isso.

Um acontecimento que me marcou demais foi quando meu pai vendeu nossa casa no interior para comprar outra na cidade de São Paulo. Com o dinheiro bem guardado no banco, recebemos a notícia de que as contas poupança estariam bloqueadas e não teríamos acesso ao nosso dinheiro. Não vou entrar em detalhes sobre as dificuldades que passamos, mas moramos na casa dos meus avós por um bom tempo.

Com tantas dificuldades durante minha infância e adolescência, lembro bem, e minha mãe também sempre conta, como eu imaginava ser um mundo melhor, lugares bonitos e famosos, qualidade de vida, segurança, condições para comprar roupas e comida. Sonhava com um futuro bonito e tranquilo, e meu lugar favorito no mundo era New York. Achava que a cidade era o centro do planeta, o lugar mais glamouroso e lindo que existia. Dizia que um dia eu moraria lá, nos Estados Unidos, um lugar quase perfeito – depois descobri que perfeito não existe, mas que tem lugares que chegam bem perto.

Um sonho e um objetivo de vida

Sair do Brasil passou a ser meu objetivo de vida, logo depois que eu me estruturasse financeiramente, tivesse uma ótima e bem sucedida carreira profissional, aprendesse outros idiomas, tivesse minha casa – para ter uma segurança de saber que teria para onde voltar, caso precisasse. Acontece que esse processo levou bem mais tempo do que eu poderia ter imaginado. Ah, se eu tivesse a experiência e mentalidade de hoje, uns vinte anos atrás!

Entre muitos altos e muitos baixos, a vida foi passando. Eu tinha certeza que meu futuro seria fora do meu país de origem, mas esse futuro nunca chegava. Minha primeira viagem ao exterior foi aos 35 anos de idade; uma viagem rápida e não planejada ao Chile, a convite de um amigo. O desejo e o sonho não eram mais algo para o futuro, estavam acontecendo. Eu senti que algo mudou dentro de mim, senti que eu poderia realizar o que quisesse.



Juntando isso aos ensinamentos religiosos que eu recebia na igreja, comecei a desapegar, mas desapegar seriamente, de bens materiais – o que eu conto em detalhes no post Desapeguei. Minha casa estava cada dia mais vazia. Dia a dia ia me desfazendo de móveis, objetos e roupas. Até o carro foi embora.

A realização

Então comecei a planejar um intercâmbio para os Estados Unidos. Foram oito meses desde que assinei o contrato com a agência e paguei uma parte do curso, até a viagem. De tanto ler sobre o assunto, no meio do caminho decidi mudar o destino para o Canadá – e foi a melhor decisão da minha vida. Mas como o meu sonho sempre foi NY, que é vizinha de Toronto, a cidade do meu curso, eu não poderia chegar tão perto e não entrar. O visto eu já tinha conseguido, o plano foi fácil: Vou até Nova Iorque de avião, fico alguns dias conhecendo a cidade mais famosa do mundo, depois vou de ônibus até Toronto. A viagem estava agendada para o dia do meu aniversário (que é 30 de março, não esqueçam as felicitações!), e isso eu conto em detalhes no post Melhor Presente de Aniversário.

Foi o melhor mês da minha vida, até então!

Com absolutamente tudo diferente do Brasil, me encantei com o Canadá, meu novo país do coração: a neve, os lugares lindos, as pessoas falando vários idiomas, gente de toda parte do mundo, receptividade, transporte público eficiente, comida a baixo custo, e qualidade de vida como eu nunca imaginei haver. Também fiquei impressionada com o que eu não vi: violência, sujeira (não em excesso), e favela. Cheguei a perguntar para a minha homestay se havia isso no Canadá. Ela me levou para conhecer o que era pobreza naquele país. Acreditem: não existe! Pelo menos não da forma como os brasileiros a conhecem. Existem pessoas morando nas ruas, mas em uma proporção infinitamente inferior à que conhecemos, e por vontade própria – influenciados pelas drogas, geralmente.

Após três semanas de estudo e passeios pela cidade, comecei a pensar que em poucos dias eu teria que voltar. Sério, uma tristeza me abatia boa parte dos dias. É algo como: quem toma banho de banheira, não quer voltar a se banhar de canequinha. Nesses dias eu já tinha a mais absoluta certeza de que o lugar onde nasci não era o meu lugar.

A tristeza no retorno ao Brasil

Dias após minha volta ao Brasil, meu amado primo de 28 anos de idade, faleceu, vítima de câncer. Uma dolorosa tragédia para a família. Doeu muito mesmo e comecei a pensar duas coisas completamente contraditórias: que eu não poderia viver longe da minha família, e que eu não poderia mais perder tempo dessa frágil vida que pode desaparecer a qualquer momento. Não é uma decisão fácil.

Durante os meses que se seguiram, sofria diariamente para levantar e trabalhar. Os passeios ficaram raros e nada mais me satisfazia. Um ano depois, pedi demissão do meu emprego e iniciei um empreendimento. Isso ajudou por um tempo, me deu ânimo e perspectiva de um futuro melhor. Mas não durou muito. Eu não suportava mais o trânsito e o medo de assaltos quando parava o carro no semáforo. Recebi uma multa por passar 2 minutos do horário do rodízio (uma lei absurda que existe em São Paulo) e quase explodi. Decidi vender o carro antes de jogá-lo ponte abaixo. Foi mais um ato da fase de desapego material. E claro que utilizar o transporte público me deixou ainda pior. O lado bom é que eu tinha tempo para ler meus livros, o que me tirava da minha realidade.

A verdade é que nada mais me agradava, tudo me incomodava. Eu já não suportava mais viver em um país onde as pessoas trabalham e não conseguem progredir – falando de um modo geral, consciente das exceções; onde as pessoas saem de casa com medo de não voltar; um lugar onde temos enchentes todos os anos, que acabam, literalmente, com a vida das pessoas; um lugar onde não há educação de qualidade, e muitas vezes nem a mínima; um lugar em que as pessoas não vão à igreja, mas uma música de teor vulgar ou incitando sexo e violência, faz sucesso; onde pessoas apenas sobrevivem. Eu estava depressiva!

A decisão

Um dia acordei com a ligação da minha mãe, que acompanhava meu regresso mental, preocupada comigo. Ela me fez a pergunta fundamental: “O que você está esperando para ir embora daqui, minha filha?”. Bastou para me despertar do meu estado de inércia, e sair do mar de procrastinação que meu sonho se afogou

Em três dias minhas malas estavam prontas e meus móveis anunciados para venda; em dois meses eu estava desembarcando no Canadá. Conto tudo o que aconteceu depois no post Saí do Brasil e Renasci.

Os brasileiros apaixonados pela pátria que me desculpem, mas isso aí não é vida.

 

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